quinta-feira, agosto 23, 2007

Temas e voltas

Quem lê um livro, ou uma poesia tenta às vezes se encaixar no papel dum personagem ou dum eu-lírico, na internet isso acontece mais com letras de músicas. É um post clássico colocar uma letra de música, a fórmula perfeita para dizer algo que sente ou o que pensa, mas sem dizer. Eu acho isso tudo muito idiota, mas vou fazer exatamente a mesma coisa agora com uma poesia de Manuel Bandeira.

Temas e voltas

Em brigas não tomo parte,
a morros não subo não:
que se nunca tive enfarte
só tenho meio pulmão.

No amor ainda tomo parte,
mas não me esbaldo, isso não:
que se nunca tive enfarte,
só tenho meio pulmão.

De Eros a arriscada arte
sempre usei com descrição:
que se nunca tive enfarte,
só tenho meio pulmão.

Bem que desejam amar-te
sem medida nem razão.
Mas qual! se não tive enfarte,
só tenho meio pulmão.

sábado, agosto 18, 2007

Orkut de gente morta

Quando alguém morre, e esse alguém tem um profile no orkut, logo começam aparecer um monte de recados dizendo palavras de apoio e votos de boa passagem para uma outra vida.

Ainda esta semana morreu um rapaz que eu conhecia, atropelado na saída do Maracanã, num jogo entre Botafogo e São Paulo. Eu nunca gostei nem desgostei dele, mas era engraçado as coisas que ele dizia, e não era um cara chato definitivamente. Não estou nem um pouco triste por causa da morte dele, mas isso me fez pensar em outras coisas.

Com ele não foi diferente, os recados do orkut encheram. Se eu morrer assim ainda jovem, com orkut e blog, quero que deletem tudo. Não quero deixar nada que eu escrevi aqui na terra. Deletem tudo, queimem meus cadernos, joguem fora tudo o que eu guardo. Essas coisas só são úteis pra mim, e foi por mim que eu as fiz ou guardei.

Bem, no fim das contas eu também desejo que a família consiga suportar a dor, assim como os amigos. O Crispim era um bom rapaz, não merecia ter perdido a vida dessa maneira. Mas tinha bastantes amigos, acho que soube aproveitar o tempo que teve.

quinta-feira, agosto 16, 2007

"O velho e o mar"

O primeiro livro de Hemingway que li foi "Por quem os sinos dobram". E se tive interesse por ele foi por causa de um álbum de Raul Seixas com o mesmo nome, aliás nesse mesmo CD descobri o livro "Nada de Novo no Fronte" de Erich Maria Remarque. Mas esta introdução foi só para dizer como descobri Ernest Hemmingway, e chegar à obra dele sobre a qual quero comentar: "O Velho e o Mar".
São poucos os personagens, e pouco o tempo em que eles aparecem, com exceção do protagonista -o velho- que fica pouco tempo fora das páginas. Talvez o livro seja capaz de fazer qualquer leitor sentir-se identificado com o pescador.
A história narra a vida de um velho pescador que já não tem a sorte e a força da juventude, mas faz isso contando o dia em que ele depara-se com o maior peixe que já viu, e trava com o animal uma batalha honesta, que além de forças físicas, trabalha a capacidade psicológica dos dois, o peixe e o velho. O clímax do livro é o duelo, e o duelo ocupa o livro inteiro.
As reflexões do protagonista são fonte de esperança, e é o grande duelo que o ajuda a pensar nisso.


- O peixe também é meu amigo, disse em voz alta. Nunca vi ou ouvi falar de um peixe desse tamanho. Mas tenho de matá-lo. É agradável saber que não tenho de tentar matar as estrelas.
"Imagine o que seria se um homem tivesse de tentar matar a lua todos os dias.", pensou o velho."A lua corre depressa. Mas imagine só se um homem tivesse de matar o sol. Nascemos com sorte."
Depois teve pena do enorme peixe que não tinha nada para comer, mas sua determinação de matá-lo jamais arrefeceu, mesmo naquele momento de pena. "Quantas pessoas irá alimentar? Mas serão elas merecedoras de um peixe assim? Não, claro que não. Ninguém é merecedor de comê-lo tão grandes são a dignidade e a sua maneira de agir."
"Não compreendo estas coisas", pensou ele. "Mas é bom que não tenhamos de tentar matar a lua, o sol ou as estrelas. Basta viver no mar e ter de matar os nossos verdadeiros irmãos."

("O velho e o Mar", Ernest Hemingway)