Cartão de natal
Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar caderno novo,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o doente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.
(João Cabral de Melo Neto - Retirado de http://www.releituras.com/joaocabral_natal.asp )
Esta poesia é fantástica. Riquíssima em imagens: o caderno novo, o pão fresco, o ferro e a ferrugem. Como ensina Carlos Gomes Teixeira, professor de Literatura no Rio de Janeiro, um texto deve começar a ser lido pelo título e pelo rodapé, neste caso "Cartão de Natal" e "João Cabral de Melo Neto", respectivamente. Daí já se prevê um tanto o que vem pela frente; o autor expõe geralmente uma visão sofrida,não de quem viveu com dor de cabeça, mas de quem conheceu o sofriento do sertanejo, por outro lado escolhe sempre um final carregado de esperança, e aí o título já cumpre o seu papel, pois o Natal é um dia de novas esperanças, quando nasce o Messias.
Bem e se já descobrimos um contorno do que encontraremos na poesia, vamos ao seu corpo:
Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar caderno novo,
fresco como o pão do dia;
O Natal é tempo de recomeçar, e é isto que o aniversário de Cristo significa na vida dos cristãos. Todo mundo já começou o ano dizendo para sí mesmo, com o caderno na mão: "este ano será diferente, eu vou estudar mais, vou anotar tudo", abre o caderno, sente o cheiro, folheia algumas páginas como que procurando por algo, mas sabendo que está em branco. E na segunda comparação, embora em tempos de pré-fabricados, o pão ainda quente da primeira fornada da padaria continua sendo a forma mais gostosa de começar o dia. É esta a mesma sensação de quando começa o ano.
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
É neste momento de recomeço da vida que os projetos parecem poder dar certo, parece que só o nosso ânimo já seria suficiente para que tudo desse certo,e que tudo o que semeamos vai enfim florescer.
que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o doente;
A sensação é repetida ano após ano, e depois de um tempo nos desleixamos e vamos perdendo as esperanças, mas o poeta deseja que desta vez seja diferente.
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.
Estes quatro últimos versos encerram com a mensagem de esperança que J. Cabral sempre escolhe, e que deverísamos mesmo esperar de uma poesia com este título. Nada pode ser melhor que o ferro corroer a ferrugem, o mal ser tranformado em bem. E quando o sim comer o não, será esquecida a dor e os insucessos.
Quem não conhece João Cabral deveria procurar por algo na internet. Ele é certamente um dos maiores poetas que o Brasil terá em toda sua existência. Além disso fica a dica de visitar o site releituras que é relamente feito com carinho, ótimo para conhecer vários escritores importantes.
www.releituras.com
terça-feira, maio 08, 2007
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